segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Fiar, Chorar e Esperar

"As mulheres da nossa família têm um fardo a carregar, fiar, chorar e esperar..." O Tempo e o Vento - Érico Verissimo

De repente, tudo o que restava era um novelo de lã. Não que não houvessem outros objetos espalhados pela casa, compondo a mais perfeita desordem. Uma velha conhecida que insistia em pedir que uma atitude fosse tomada, inconveniente e teimosa, assim como toda a sujeira que implorava por limpeza. Dizem que a bagunça de um quarto reflete a confusão mental de quem nele dorme. Eu sempre soube que era um caso perdido. Encontrava em qualquer outra coisa um motivo vagamente convincente pra seguir procrastinando o que se demonstrava como sendo um afazer tão inútil quanto infinito. Quanto mais arrumasse e limpasse, mais coisas surgiriam pra ser limpas e arrumadas. É uma tarefa que não tem um fim. Não é como escrever um texto ou fazer tricô. Deve ser por isso que as donas de casa sofrem de depressão. 

É que alguns objetos tem o costume impertinente de chamar mais a atenção do que outros. Também é assim com as pessoas. De alguns deles quase se podia ouvir o que diziam aos gritos, brados inexistentes que ecoavam pelos ouvidos. Também acontecia com as cortinas, alvas, imaculadas, puras como se nunca tivessem conhecido o pecado. Dissimuladas. As garrafas vazias que se multiplicavam. No cinzeiro transbordando em cinzas de cigarros fumados pela metade mais um retrato do vazio. Quanto às plantas, elas continuavam crescendo vigorosamente, quase que alegremente, como se pouco se importassem com as mãos pelas quais outrora tinham sido semeadas. 

A cidade dormia seu sono triunfal, de pessoas que provavelmente imaginavam ter motivos pra esperar por um longo dia pela frente. Mais uma semana dentro dos conformes, feliz, talvez. Por hora tudo permaneceria no mais insano silêncio, não fosse pelo barulho ensurdecedor da geladeira. Abrindo e fechando a geladeira a noite inteira, com fome de algo que sabia que não iria encontrar lá. E quando não fizesse mais sentido andar de um lado para o outro da casa, o que pareceria loucura aos olhos de um ser invisível que se fizesse presente, sairia sacada afora pra acender mais um cigarro, como se assim pudesse finalmente dar um sentido à vida. Olhar para o céu, ver no movimento das nuvens, a mesma paisagem de todos os dias. Esperando ingenuamente por alguma novidade. Essa deveria ser uma ocupação legítima, mais do que sair da cama em direção ao cotidiano tedioso e necessário, apenas fumar e escrever ou fiar, chorar e esperar.

O novelo de lã continuava lá. Acredito que novelos de lã possuem peculiaridades que são inenarráveis, mas que fazem jus à vã tentativa de serem exploradas por uma narrativa qualquer.  Todos eles trazem consigo um tipo de esperança desconfortável. Não se pode comprar um novelo de lã impunemente. É preciso que se dê um destino a ele. Um sapatinho, uma touca, um cachecol. Alguma coisa. Nós acabamos adquirindo muitas coisas, coisas que vão se consumir imediatamente ou simplesmente jazer como enfeite numa prateleira, coisas demais. Mas partir do momento em que se compra algo como um novelo de lã, é firmado um compromisso entre ele e você. Não se pode simplesmente deixar pra lá. As coisas que precisam ser feitas chamam com mais urgência quando se tenta escondê-las furtivamente no fundo de uma gaveta.  E o novelo de lã continuava lá.

Não só pra me fazer lembrar de sua melancólica existência, mas exigindo que se tomasse uma providência, que não fosse a alcoólica. Não é como uma planta, só o que se tem a fazer é semear e esperar que ela faça por si só o que se propôs a fazer. Com um pouco de terra, água, sol e carinho, as plantas dão conta do recado. É importante que se olhe pra elas todos os dias. É possível encontrar alguma satisfação em vê-las crescendo coradas e rijas, dando flores como que sorrindo pra você. De alguma forma, é como se elas soubessem quem realmente olha por elas. A minha avó tinha verdadeiro apreço por plantas e não é difícil entender o porquê. 

Um novelo de lã não passa de um amontoado de fios, emaranhados de forma graciosa e perturbadora. Ele tem uma cor, uma textura, uma promessa. Tem tudo a ver com alguma pessoa. Você imaginou como ficaria bem em alguém a peça a que planejou dar forma um dia. Pensou em como seria uma boa surpresa. Pouco importa que esse acontecimento nunca vai se concretizar, de qualquer forma já aconteceu, dentro da sua mente. Não adianta tentar levianamente dar outro tipo de destinação a ele. Você não pode simplesmente sair pelas ruas usando um cachecol que não é seu com um sorriso no rosto, muito menos jogar o objeto de um furto por antecipação nas mãos de um inocente.

Você precisa apenas ir trançando os fios ou as palavras de alguma forma lógica até que isso acabe por se transformar em algo. Algo belo, que seja admirável. Nessa vida é preciso desenvolver algum talento que faça com que você se sinta alguém, alguém que não viveu inutilmente, que deixou a sua marca no mundo. Que faça a pessoa a quem você dedica a sua obra-prima se sentir especial. É o que se pode dizer sobre a arte. Não faria sentido tamanha dedicação e horas perdidas, e então guardar tudo pra si mesmo, sem fazer mais alguém feliz. É isso que nos faz levar a vida adiante, afinal. A arte é como a luz no fim do túnel. É ainda ter algo belo e luminoso pra se olhar quando tudo ao redor escurece. 

Uma terapia, isso de ocupar as mãos e desocupar a mente. É como se fosse possível ter uma boa conversa com algumas coisas, como se ao falar com elas, curiosamente, elas falassem de volta.  Como se a cada passada de agulha uma pergunta fosse respondida. A cada linha escrita, as coisas se tornassem mais claras. 

Todo mundo precisa de algo pra seguir em frente, e ir desembolando e bolando os fios até que eles formem alguma coisa de aspecto melhor que um novelo, parece uma boa ideia. Já sei. Qualquer coisa que faça sentido. Que possa ser útil a alguém. Que possa aquecer em dias frios. A sua textura macia talvez traga consigo algum conforto. Que formasse a composição perfeita com a cor dos olhos de alguém. Que pudesse até ser impregnado pelo doce perfume de outra mulher. Que possa fazer lembrar de mim.

Fios e mais fios fazendo o que eles fazem de melhor, ir do nada ao lugar nenhum.

Delírios.

Talvez a coisa certa a se fazer, aquela racional, fosse tão somente transformar a porra toda em uma grande e majestosa fogueira. Novelos de lã, chambres, cortinas. Folhas e mais folhas de caderno. Teatral, poético, simbólico. Ritualístico, até. 

Bom seria se fosse possível, com a mesma facilidade, transformar em cinzas todos os pensamentos idiotas sobre o que foi, o que não foi e, principalmente, o que poderia ou não ter sido. Deixar que todos os sentimentos, ansiedades e angústias, finalmente descansem em paz. Dar a eles um funeral digno. E depois jogar pelos ventos o que restou e sair andando. Com leveza. Como se nada tivesse acontecido.

Fotos: Reprodução

domingo, 19 de outubro de 2014

Livros ou Travessuras?

Estou participando do Projeto Blogagem Literária Coletivapromovido pelos Blogs Chá & Livros, Os Literatos e Diário de uma Livromaníaca, que trazem a cada semana um tema novo pra inspirar nossas postagens. Diga-se de passagem que estou surpresa com a criatividade do pessoal e muito animada com o projeto! Como estamos no mês das bruxas, escolhi pra responder essa TAG, que já é temática, livros que de alguma forma também remetem ao Halloween:

Fotos: Reprodução


1°. Livro Drácula: Os vampiros são caracterizados por sugar o sangue alheio, cite aquele livro que sugou todas as suas forças, deixando você sem ar.

Não é uma história sobre vampiros, mesmo assim, O Morro dos Ventos Uivantes sugou todas as minhas forças em dois sentidos: primeiro porque a forma como foi escrito é um pouco cansativa, não é aquela leitura que flui com facilidade, você custa a passar pelas páginas; segundo porque o enredo em si é denso, pesado, sombrio. Me interessei por esse livro por ser o favorito do casal Edward e Bella, de Crepúsculo, mas não foi exatamente o tipo de leitura que eu estava esperando, é outro nível. De qualquer maneira, é um clássico, valeu a pena a ter lido.

2°. Livro Fantasma: É de consenso geral que os fantasmas existem nas histórias de terror para assustar e assombrar a todos. Comente sobre aquele livro que te assombrou durante muito tempo.

Os Sete, esse sim é um livro sobre vampiros, e que livro. Não aquele tipo de livro sobre vampiros que na verdade é um romance água-com-açúcar, tipo Crepúsculo. Dá medo mesmo. Os vampiros são cruéis e querem ver sangue, como tem que ser. André Vianco é um dos autores nacionais dos dias de hoje que merecem destaque. 

3°. Livro Lobisomem: Tal qual a licantropia que passa de mordida por mordida, cite um livro que você gostou tanto que indicou a várias pessoas.

O Livro dos Espíritos não é terror, embora a ideia de espíritos entre nós possa causar arrepios em algumas pessoas. Na verdade é um dos livros básicos da Doutrina Espírita. Um bom livro pra curiosos, como eu. É feito de perguntas e respostas sobre os principais temas que afligem a humanidade, em que as perguntas feitas pelos médiuns são respondidas por espíritos, o que foi posteriormente reunido nessa obra por Allan Kardec. Eu sempre indico esse livro, que foi um divisor de águas na minha vida. A descoberta do Espiritismo trouxe consigo um mundo completamente novo pra mim. Não tenho uma religião, sou espiritualista. E simpatizante com o Espiritismo, que muito me encanta. Sou a favor de buscar conhecer e entender ao máximo a diversidade religiosa que temos pelo mundo afora, e só então escolher uma crença, ou não! Esse livro é antigo e tem muitas edições, por isso escolhi a primeira capa.

4°. Livro Bruxa: Bruxas são famosas por jogarem feitiços e maldições nas pessoas. Portanto, conte-nos qual livro que te enfeitiçou, pode ser tanto de forma positiva quanto negativa.

Não poderia escolher outro senão Harry Potter,  que me enfeitiçou completamente e de forma positiva, sem dúvidas! O que falar sobre essa série? É a minha série preferida de todos os tempos. Harry Potter e a Pedra Filosofal foi meu livro start, minha mãe comprou e me forçou um pouco a ler no começo, mas não demorou muito pra eu criar o amor pela leitura. Passei boa parte da infância/adolescência esperando ano após ano pelo lançamento dos próximos livros e filmes, foi realmente uma época mágica. Nem sei o que dizer, eu só queria ter recebido a minha carta de Hogwarts quando fiz 11 anos. 

5°. Livro Frankenstein: Infelizmente, o Frankenstein é aquele personagem o qual as pessoas julgam pela sua aparência aterrorizadora. Em sua homenagem, comente aquele livro que a princípio você julgou mal pela capa, mas ao ler você acabou gostando da história.

Vamos combinar que essa capa de Incidente em Antares é bem sem graça, né? E como se não bastasse isso, fui "obrigada" a ler no colégio, o que também não ajuda a tornar a leitura algo muito animador. Literatura nacional, Érico Verissimo, 496 páginas. Na minha cabeça, tinha tudo pra ser ruim, mas eu sempre tentava dar uma chance para os livros que meu professor de Literatura cobrava, porque às vezes acabava gostando, e não é que esse livro foi um desses? É a história de terror mais maluca de todas! Cadáveres saindo de suas tumbas, só pra dar uma prévia. Eu morava com meus avós na época do colégio, e lembro de ter contado pro meu vô sobre esse livro enquanto estava lendo, e ele lembrou de ter lido também na época de colégio, de tão marcante que é a história. Acho que eu daqui 50 anos ainda não vou ter esquecido.

6°. Livro Zombie: O Zombie é aquele personagem clássico que não dorme. Qual foi o livro que te fez ficar acordada a noite toda sem conseguir parar de ler?

Lembro de ter passado várias noites em claro até terminar de ler a saga Crepúsculo. Pra que dormir? Eu realmente mergulhei de cabeça nessa história. Apenas queria mais do que tudo ser uma vampira, e não precisar dormir era uma das grandes vantagens nisso, dentre outras. Além disso, me apaixonei perdidamente pelo Edward. 




7°. Livro Gato Preto: Essa é aquela lenda que você não sabe se acredita ou não e acaba ficando confuso. Sendo assim, fale daquele livro que te deixou confuso, sem saber muito bem como reagir a ele.

Até hoje não sei se amei ou odiei A Hospedeira. Li por ser da mesma autora de Crepúsculo, série que eu adorei, mas a proposta desse livro é totalmente diferente. Ficção científica futurista ou lunática. É um enredo bizarro, e não sei se de um jeito bom ou ruim. Não sei mesmo. 





8°. Livro Fogueira: A fogueira foi a causa das mortes injustas de muitas “bruxas”, assim como um símbolo presente em várias narrativas de horror. Conte sobre aquele livro que acendeu uma chama interior e te deixou pegando fogo de tanta raiva.

Eu definitivamente detestei A Cabana. Criei muita expectativa e no final das contas não entendi como tanta gente gostou, minha vó gostou. Tem umas passagens bonitas, mas o livro não fez o menor sentido pra mim, achei o enredo sem pé nem cabeça, apenas. Sabe aquele autor que vai contando uma história mais mirabolante que a outra, você se esforça pra ler até o final, achando que vai encontrar uma boa explicação pra tudo com um belo desfecho, e acaba que tudo não passou de um sonho, ou algo do tipo, simplesmente deixa tudo no ar? Sim, passei raiva e vontade de tacar fogo. 

9°. Livro Cavaleiro Sem Cabeça: Diz a lenda que o Cavaleiro que assombrava Sleepy Hollow perdeu a cabeça durante a Guerra da Independência dos EUA. Porém aqui o que faz perder qualquer parte do corpo são os livros, por isso, conte-nos sobre aquele livro que te fez perder a cabeça, ou seja, a compostura.

Misto quente. Esse é um livro que eu estou terminando de ler, na verdade. Charles Bukowski é genial e ao mesmo tempo completamente insano, me fez rir tanto quanto chorar. Simplesmente perplexa, em vários momentos eu não conseguia acreditar no que estava lendo. Ele te leva até as nuvens e então, sem aviso prévio, despenca em direção a uma fossa qualquer. É a simples história de terror da vida real, um verdadeiro tapa na cara.



10°. Livro Cemitério: O cemitério é um cenário clássico do Halloween e das narrativas de terror, ele é considerado um lugar terrivelmente calmo e silencioso, reservado para o sepultamento dos mortos. Para caracterizar o cemitério, cite aquele livro que você enterrou na sua estante, não terminou de ler ou nem mesmo começou, seja por ter esquecido ou por ter desanimado com a história.

Ih, tem vários... Vááários. Mas ainda pretendo ler todos.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Um Gato de Rua Chamado BOB

É, eu li sobre a história de vida de um gato, um tal de Bob. E morri de amores. Às vezes faz bem ler qualquer coisa envolvendo animais fofos. 

Dizem que tem gente que é mais de gato e tem gente que é mais de cachorro. Hoje em dia nem sei dizer de qual dos dois gosto mais, e pensar que houve a época em que eu amava cachorros e odiava gatos. Por algum motivo que eu nunca entendi, meus avós detestavam gatos, eles eram totalmente mais de cachorro. E eu também fui assim, sem saber o porquê, até que conheci uma grande amiga minha aos 13 anos, que era e ainda é uma pessoa mais de gato. Ela tinha um gato laranja maravilhoso chamado Nick. Esse livro me fez lembrar do Nick o tempo todo.















Além de contar o brilhante cotidiano de um gato fora do comum, esse livro também fala de superação. Não só o gato era um morador de rua, mas também seu "dono", o autor do livro, James Bowen. Muitas vezes as pessoas adotam animais de estimação, mas nesse caso foi o gato quem adotou James. Ele vivia nas ruas, havia perdido o contato com a família e tinha um longo histórico de vício em drogas, principalmente a heroína, do qual estava lutando para se libertar. Bob surgiu num momento em que James não conseguia dar conta de cuidar nem de si mesmo, quanto mais de um animal de estimação. James vivia um dia após o outro, fazendo apresentações de rua e alguns bicos para ganhar dinheiro, e seus maiores planos eram sobre como conseguiria a próxima refeição. Até que fez amizade com esse simpático gatinho laranja, pensando que ele em breve seguiria seu próprio caminho, mas não foi o que aconteceu. Bob ia junto aonde quer que ele fosse.






Depois de Bob, a vida mudou. As pessoas que antes passavam por James desviando o olhar e apressando o passo, sem parar pra ouvir sua música e muito menos jogar algum trocado na cestinha, agora ficavam encantadas com seu companheiro, parando constantemente para brincar com Bob e dar um agradinho aos dois. Ao lado dele, James não era mais invisível, pois Bob chamava muito a atenção. Logo as moedas se multiplicaram no cesto, enquanto Bob ganhava desde rações especiais, biscoitos e uma porção de guloseimas, até coleiras, roupinhas e em algum tempo já tinha uma coleção de cachecóis. No fim das contas, quem James pensou que seria uma despesa com a qual não teria condições de arcar, agora trazia consigo lucros jamais vistos. Pela primeira vez em muito tempo, ele foi obrigado a criar algum senso de responsabilidade, e isso motivou James a buscar uma vida melhor para ele e Bob. 

Como esse é um livro de não-ficção, praticamente uma auto-biografia, ele não segue um padrão de começo, meio e fim, com aquela história toda que vai evoluindo até atingir um clímax e depois um desfecho. É só uma linda história da vida real e simples de um homem cheio de problemas e seu animal de estimação, que não é um gato qualquer, é na verdade um gato muito especial, que mais parece gente, e as mais diversas peripécias dos dois. O que acaba tornando a leitura algo encantador para quem gosta desses bichanos. Eu que faz muito tempo que quero um gato, agora não só quero um gato, como quero um gato laranja!   

Fotos: Retiradas da fan page oficial no Facebook, "James Bowen & Street Cat Bob" 



domingo, 21 de setembro de 2014

O canto da Sereia

Fotos: Reprodução

Esses dias eu estava atrás de uma nova série pra ver, como sempre. Achei essa, que não é exatamente nova, na verdade, acho que todo mundo já viu, menos eu. Sabe, eu já fui uma pessoa que ficava horas por dia vendo tv, mas depois da internet, definitivamente troquei a televisão pelo computador. Não tenho mais paciência pra sentar na frente de uma tela e acompanhar novela, programa ou o que for, dentro dos parâmetros televisivos, tendo horário fixo e tudo mais. Não tenho mais paciência principalmente pra novela, meses e meses naquela enrolação e encheção de linguiça típicas. Prefiro escolher o que ver e quando ver aqui na internet, mesmo. 

Eu sei que a Rede Globo é muito criticada por não ser exatamente um exemplo de emissora em determinados aspectos, mas minissérie é uma coisa que eu acho que eles fazem bem. Já das novelas não sei se posso dizer o mesmo, até porque parei de assistir depois de alguns acontecimentos da minha vida, chamados "sair de casa" e "fazer faculdade". Houve a época em que eu tinha tempo de sobra e companhia pra isso, e acompanhava as novelas, uma atrás da outra, com a minha vó. Nem sei se eu conseguiria ter um olhar crítico o suficiente sobre as novelas, pois elas sempre foram carregadas de sentimentalismo pra mim. Pra mim novela é uma coisa pra ser assistida na sala de casa, é uma coisa meio família, pra ficar comentando com quem está esticado lá no sofá ao lado. 

Mas o assunto de hoje é minissérie! Vejo as minisséries como que num degrau acima das novelas. As minisséries são mais do jeito que eu gosto: mais qualidade e menos quantidade. São mais bem elaboradas e dinâmicas. Pode falar o que quiser da Globo, mas as minisséries boas, algumas baseadas em acontecimentos históricos, outras baseadas em obras da literatura nacional, como é o caso dessa, adaptada da obra de Nelson Motta

Quem sabe um dia eu leio o livro?


Queria assistir alguma coisa nacional, pra variar um pouco. É legal prestigiar o que o nosso país tem de bom, e olha que tem muita coisa boa por aí. Eu acertei em cheio na escolha! É uma minissérie baseada em um romance policial, que gira em torno do assassinato da Sereia (o que não acho que seja spoiler, pois ela morre logo no primeiro episódio e, como já disse, a série gira em torno disso). É uma série intensa e rápida, com apenas 4 episódios. Pensando bem, foi até melhor ver depois, assim eu vi tudo de uma vez, um episódio em seguida do outro. Não tive que esperar até o dia seguinte, morrendo de ansiedade pelo próximo episódio, como as pessoas que acompanharam na tv devem ter ficado.

Sereia, interpretada pela atriz Ísis Valverde (que foi maravilhosa, a propósito), é uma cantora de Axé de origem humilde que estava fazendo o maior sucesso, no auge da carreira, quando foi assassinada, em cima do trio elétrico e em pleno carnaval de Salvador, com um tiro no peito. Com isso, seu guarda-costas decide que vai descobrir quem matou Sereia, nem que seja a última coisa que ele faça na vida.

Ísis Valverde divando

É aquele bom romance policial, que vai te enlouquecendo... No decorrer da investigação parece que o autor do crime pode ter sido qualquer um à volta dela, todos são altamente suspeitos, cada um parece ter algum bom motivo pra fazer isso. Você simplesmente precisa chegar até o final e descobrir quem, afinal, matou Sereia. E o final, como em todo bom romance policial, surpreende. É claro que não vou contar o final, por mais que "todo mundo" já tenha assistido, vai que ainda tem algum perdido igual eu por aí?

Quem matou Sereia???

Termino a resenha com uma salva de palmas ao Brasil por mais essa belíssima obra, cheia de palavrão, putaria e violência, como não poderia deixar de ser, mas cheia também de arte, cultura e genialidade desse escritor brilhante, que ganhou a minha admiração. 


terça-feira, 16 de setembro de 2014

Assassin's Creed - Renascença

Até agora só falei de livros e séries dos quais eu gostei (ou adorei), mas, como nem tudo são flores, o escolhido de hoje é o último que li, o Renascença, primeiro livro da série Assassin's Creed, do autor Oliver Bowden, série da qual eu não pretendo dar continuidade na leitura, pois infelizmente não gostei e vou explicar o porquê.

Fotos: Reprodução

Esse livro foi muito indicado por uma velha amiga minha, que tem o gosto literário bem parecido com o meu, faz um bom tempo. Fiquei com o livro na cabeça, mas sem planos muito concretos de iniciar a leitura tão logo, até que o encontrei em promoção nas Livrarias Curitiba, quando não pude resistir a comprar e já começar a ler. Nós duas gostamos de ler aventuras e fantasias, do tipo J. R. R. Tolkien e J. K. Rowling... E achei que seria mais um livro pelo qual compartilharíamos do mesmo amor, mas como gosto é gosto, de alguma coisa nessa vida tínhamos que discordar.

Eu sei que o livro foi adaptado do videogame, mas como não jogo (um vício a menos!), não posso falar sobre, então essa resenha trata estritamente do livro como livro. O que eu posso dizer é que só ouvi falar bem do jogo, então se for mesmo tudo isso, pode-se concluir que não houve uma boa adaptação. Sinto que algo se perdeu no meio do caminho entre o jogo e o livro. 

A impressão que eu tive foi que alguém se sentou na frente do videogame e foi pondo no papel exatamente tudo o que se passava na tela. Sem se preocupar muito em contextualizar a coisa, sem riqueza de detalhes, sem profundidade nas personagens, sem maiores descrições e toda aquela magia que faz um livro ser o que ele é. A sensação foi a de estar jogando um jogo e não lendo um livro, e, convenhamos, se eu quisesse isso, teria investido num videogame e não numa estante. 

Devo dizer que o livro não foi de todo ruim, na verdade, tinha tudo pra ser bom, contando com elementos que poderiam ter feito dele um livro e tanto, tais como relatos históricos, paisagens da Itália antiga e a presença de personalidades do calibre de Leonardo da Vinci e Nicolau Maquiavel, mas esses elementos, ao meu ver, poderiam ter sido melhor explorados.

Eu poderia resumir esse livro, de 300 e tantas páginas que só terminei de ler por desencargo de consciência, em 3 linhas, mas vou me esforçar pra escrever um pouco mais do que isso. 

A narrativa tem início na adorável cidade italiana de Florença, onde o protagonista, o jovem Ezio Auditore, vive feliz com a sua família, pai, mãe, irmão mais velho, irmão mais novo e irmã, e tem até uma namorada chamada Cristina. 

A partir daqui a resenha pode conter SPOILER. O aviso está dado.

Eu não costumo dar spoiler, prefiro fazer mistério quando gosto de um livro, para despertar o interesse em ler. Mas, como eu achei que o livro não valeu a pena e por esse motivo não recomendo a leitura, vou contar resumidamente a história. Não vejo problema nisso, até porque o enredo segue mais ou menos uma fórmula pronta e é bastante previsível por si só. Então, a título de curiosidade ou seja lá pelo que for, eis o pontapé inicial do livro: 

Os homens da família Auditore são injustamente executados em praça pública, acusados de um crime que não cometeram, traídos por um falso amigo e Ezio só consegue se salvar por obra do destino. Falando nisso, o que não falta na vida dessa pessoa é sorte, e no decorrer da leitura isso chega a ser irritante. Ele sempre está no lugar certo e na hora certa, sempre escapa por um triz, enfim, ele é o melhor, e essa coisa toda, o que torna a narrativa meio surreal demais. Sabe aquela história que não convence de jeito nenhum, que você não consegue acreditar nas personagens e mergulhar de cabeça no mundo criado? Então.  

Com isso, Ezio descobre que faz parte de uma seita secreta, o Credo dos Assassinos, da qual fizeram parte seu pai e demais antepassados, e parte Itália afora com o objetivo de matar todos os inimigos, seguindo seus instintos vingativos com sede de sangue. É basicamente isso. A leitura vai se desenrolando de missão em missão, até que ele tenha percorrido o país de cima a baixo assassinando todos eles, um a um, e eles são muitos. Você não tem tempo nem pra respirar e isso é realmente cansativo. Depois de "tudo", o livro acaba e você se dá conta de que ele viveu a vida em função disso e ainda passa a mensagem de que tudo valeu a pena, afinal ele salvou o mundo.  Fim.

Pra não dizer que eu não falei nada de bom, tem algo realmente bom, que é isso:

https://www.youtube.com/watch?v=S8b1zWOgOKA

E a música da Lindsey Stirling, adoro ela:









sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Vikings

Dias atrás terminei de assistir a segunda temporada de Vikings, o último seriado que me viciou completamente. Os planos eram resenhar cada série só depois de terminar todas as temporadas, porém como a terceira temporada será lançada só no ano que vem e eu amei tanto, não aguentei. Então, o jeito é ir atualizando a resenha depois! 



A série foi lançada pelo History Channel, um dos meus canais preferidos da tv a cabo, e retrata a relevante História dos povos nórdicos, em especial os Vikings, como o próprio nome já diz, povo que sempre exerceu um certo fascínio sobre mim. Adoro saber todos os detalhes sobre os povos antigos (às vezes acho que deveria ter feito História), sobre como eles viviam, desde a vida cotidiana, com seus costumes, vestimentas e festas, e também sobre a guerra, com suas armaduras, escudos e machados, as aventuras da navegação, invasão e exploração de novos territórios, até as crenças e rituais sagrados, tudo isso é muito mágico... Além de serem conhecidos e temidos como gigantes, foram um povo muito sábio e bravo, digno de admiração.



A história se passa em uma aldeia governada inicialmente por Earl Haraldson, casado com a bela Siggy, com quem tem uma filha e tinha dois filhos, que sofreram um assassinato brutal, cujo autor é um mistério. O protagonista, Ragnar, é um jovem visionário e corajoso, que sonha em desbravar novos horizontes viajando para o Oeste, onde acredita que existem terras cheias de riquezas. Com a ajuda de artefatos e informações que conseguiu de um viajante, e a contragosto do Earl, convence seu amigo Floki a construir um barco, no qual parte com ele, seu irmão e mais alguns de seus amigos leais e destemidos, que compartilham de suas convicções, às escondidas sentido ao Oeste.

 Ao voltarem de viagem, não só vivos, sãos e salvos, como carregados de tesouros e escravos, causam alvoroço na aldeia, o que dá início ao desprestígio e decadência do Earl, que os havia proibido de viajar, afirmando categoricamente que não existiam terras a Oeste. Assim, dá-se início à árdua e gloriosa trajetória de Ragnar em busca do poder... 

É uma trama muito bem pensada, estudada e trabalhada, as personagens e seus atores são incríveis. A série prende, episódio a episódio e, além de ser histórica, é realmente instigante e cheia de reviravoltas. Enfim, só amor por esse seriado... As paisagens são lindíssimas, sem contar a trilha sonora que é maravilhosa! 

Minha música favorita: https://www.youtube.com/watch?v=bbgvgk50e94

Música de abertura: https://www.youtube.com/watch?v=qUnB846aB4I




Ragnar Lothbrok, personagem principal.


Ragnar e seu lindo irmão, Rollo.

E à direita de Ragnar, sua mulher Lagertha, a escudeira.

Já falei que o Rollo é lindo?



Aslaug, passou metade do seriado grávida.
A bela e ambiciosa Siggy.

Todas as mulheres do mundo querem ser ela, ou pelo menos ter o cabelo igual.


Floki, o construtor de navios, personagem meio doido desses que não podem faltar, e que se tornam queridinhos.

Pra fechar, uma das imagens mais lindas até agora, o casamento viking de Helga e Floki. (Acho que não é spoiler, eles estão juntos desde sempre.)

Fotos: Reprodução

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Nada a Invejar - Vidas Comuns na Coreia do Norte

Depois de mais de 6 meses sem internet, me desintoxicando um pouco desse vício, estou de volta. As pessoas me perguntam, como é que eu consigo? Também não sei, deve ser do mesmo jeito que consegui passar quase 1 ano sem celular. Li alguns livros nesse meio tempo e um deles se destacou e por isso foi o meu escolhido para a resenha de hoje.

Numa pesquisa rápida encontrei não muitas (na verdade quase nenhuma) resenhas sobre esse livro, e acho mais interessante (e útil) escrever sobre um livro meio "inusitado" como esse do que sobre um daqueles mais batidos e exaustivamente resenhados por aí. Não que eu não leia livros assim, aliás, é o que eu mais leio. É que eles não precisem de mais uma resenha, mesmo. Quando eu descubro alguma coisa muito legal quero fazer com que mais pessoas façam a mesma descoberta, ainda mais quando essa coisa ainda não tem todo o prestígio que eu acho que merece. É o caso desse livro. 

Esse livro caiu de paraquedas nas minhas mãos. Eu nunca tinha sequer ouvido falar dele, e provavelmente não teria lido se não fossem algumas circunstâncias especiais, por assim dizer. A propósito, me parece que é assim que os melhores livros preferem chegar até mim, não pelo caminho mais usual, como, por exemplo, numa volta pela livraria. Passei as últimas férias na casa da minha vó e ela estava lendo e falou bem dele, disse também que pegou emprestado de uma prima minha que é professora de História (que, como toda boa professora, sempre tem ótimas indicações de livros). Foi o que bastou pra me despertar o interesse pela leitura, e o resto dá pra imaginar como foi. 


Pobre norte-coreano limpando um dos colossais monumentos em homenagem ao seu tirano. Sugestivo.
Antes de mais nada, é mais um drama. E esse não é um livro de ficção. Esse livro é sobre até que ponto a miséria humana pode chegar. É um livro feito de histórias reais. Talvez porque não seja necessário inventar e dramatizar muito pra produzir um livro chocante sobre a Coreia do Norte, pois ela já oferece mais que o suficiente pra isso, por si só.

A escritora, Barbara Demick, é jornalista, correspondente do Los Angeles Times, e se mudou para a Coreia do Sul a trabalho, onde morou por alguns anos e, no decorrer desse tempo, foi juntando em suas anotações as histórias de vida de pessoas que conheceu pelo caminho e tecendo a trama entre essas histórias e a História no que, tempos mais tarde, se tornaria um livro. É aquele tipo de livro onde as vidas personagens se mesclam de uma forma adorável, e você lê como se assistisse a uma novela. Leitura altamente enriquecedora em termos políticos, culturais e sociais, mistura notícias e romance numa viagem incrível guiada por encantadores norte-coreanos por sua terra inóspita.

Barbara Demick


São aquelas histórias de vida comoventes, que nos fazem ver como a nossa vida é boa, que apesar de tudo podemos nos considerar como pessoas de sorte pelo simples fato de ter nascido no Brasil. E o pior, durante a leitura você está consciente de que fatos tais como os narrados podem estar acontecendo em algum lugar do mundo até hoje, no momento em que você lê o livro. Níveis inimagináveis de sofrimento, apenas superficialmente vislumbrados, através dessa obra que beira a perfeição, fazendo com que o leitor quase que sinta na pele o que os personagens sentiram, revivendo suas vivências por meio da leitura. Pra mim o importante em um livro é isso, como me marcou, como me fez sentir.

Esse livro me fez parar pela primeira vez para imaginar como realmente seria a minha vida sem nada do que existe em minha volta. Se a partir de amanhã, sem aviso prévio, eu fosse aos poucos perdendo tudo o que tenho hoje, desde as coisas mais fúteis, como roupas, sapatos, maquiagens, até móveis e eletrodomésticos. Se eu fosse perdendo as pessoas à minha volta. Se não tivesse absolutamente nada pra comer por dias e dias, se não tivesse sequer um cobertor pra passar por rigorosos invernos com neve. Se tivesse que apelar para atos de desespero, como sair pelo mato em busca de ervas daninhas e matar animais de estimação para comer, e por fim acabasse pondo pra dentro qualquer coisa mastigável, só para enganar o estômago. Se tivesse que improvisar com o que tem para me aquecer, num lugar onde não tem nada. Se não tivesse energia elétrica, muito menos internet. Pois foi o que aconteceu, a Coreia do Norte não só parou no tempo de forma assustadora como regrediu, passou de um país em acensão como qualquer outro, para um verdadeiro buraco negro:

Fotos: Reprodução


Enquanto nós temos acesso a todos os meios de comunicação disponíveis e o grandioso advento da internet, podemos ir até a livraria e adquirir um livro como esse para, por curiosidade, só para passar o tempo ou por qualquer outro motivo, ler um pouco sobre a vida do outro lado do mundo; os moradores da Coreia do Norte, não tem nem mesmo a vaga noção de como é precária a situação em que eles se encontram em relação ao resto do mundo, tal a alienação e o isolamento em que vivem, pois o governo os faz acreditar, com que se pode chamar de uma verdadeira lavagem cerebral, que eles não tem, como diz um dos seus hinos, nada a invejar. Afinal, eles vivem no melhor país do mundo.