quinta-feira, 24 de julho de 2014

Nada a Invejar - Vidas Comuns na Coreia do Norte

Depois de mais de 6 meses sem internet, me desintoxicando um pouco desse vício, estou de volta. As pessoas me perguntam, como é que eu consigo? Também não sei, deve ser do mesmo jeito que consegui passar quase 1 ano sem celular. Li alguns livros nesse meio tempo e um deles se destacou e por isso foi o meu escolhido para a resenha de hoje.

Numa pesquisa rápida encontrei não muitas (na verdade quase nenhuma) resenhas sobre esse livro, e acho mais interessante (e útil) escrever sobre um livro meio "inusitado" como esse do que sobre um daqueles mais batidos e exaustivamente resenhados por aí. Não que eu não leia livros assim, aliás, é o que eu mais leio. É que eles não precisem de mais uma resenha, mesmo. Quando eu descubro alguma coisa muito legal quero fazer com que mais pessoas façam a mesma descoberta, ainda mais quando essa coisa ainda não tem todo o prestígio que eu acho que merece. É o caso desse livro. 

Esse livro caiu de paraquedas nas minhas mãos. Eu nunca tinha sequer ouvido falar dele, e provavelmente não teria lido se não fossem algumas circunstâncias especiais, por assim dizer. A propósito, me parece que é assim que os melhores livros preferem chegar até mim, não pelo caminho mais usual, como, por exemplo, numa volta pela livraria. Passei as últimas férias na casa da minha vó e ela estava lendo e falou bem dele, disse também que pegou emprestado de uma prima minha que é professora de História (que, como toda boa professora, sempre tem ótimas indicações de livros). Foi o que bastou pra me despertar o interesse pela leitura, e o resto dá pra imaginar como foi. 


Pobre norte-coreano limpando um dos colossais monumentos em homenagem ao seu tirano. Sugestivo.
Antes de mais nada, é mais um drama. E esse não é um livro de ficção. Esse livro é sobre até que ponto a miséria humana pode chegar. É um livro feito de histórias reais. Talvez porque não seja necessário inventar e dramatizar muito pra produzir um livro chocante sobre a Coreia do Norte, pois ela já oferece mais que o suficiente pra isso, por si só.

A escritora, Barbara Demick, é jornalista, correspondente do Los Angeles Times, e se mudou para a Coreia do Sul a trabalho, onde morou por alguns anos e, no decorrer desse tempo, foi juntando em suas anotações as histórias de vida de pessoas que conheceu pelo caminho e tecendo a trama entre essas histórias e a História no que, tempos mais tarde, se tornaria um livro. É aquele tipo de livro onde as vidas personagens se mesclam de uma forma adorável, e você lê como se assistisse a uma novela. Leitura altamente enriquecedora em termos políticos, culturais e sociais, mistura notícias e romance numa viagem incrível guiada por encantadores norte-coreanos por sua terra inóspita.

Barbara Demick


São aquelas histórias de vida comoventes, que nos fazem ver como a nossa vida é boa, que apesar de tudo podemos nos considerar como pessoas de sorte pelo simples fato de ter nascido no Brasil. E o pior, durante a leitura você está consciente de que fatos tais como os narrados podem estar acontecendo em algum lugar do mundo até hoje, no momento em que você lê o livro. Níveis inimagináveis de sofrimento, apenas superficialmente vislumbrados, através dessa obra que beira a perfeição, fazendo com que o leitor quase que sinta na pele o que os personagens sentiram, revivendo suas vivências por meio da leitura. Pra mim o importante em um livro é isso, como me marcou, como me fez sentir.

Esse livro me fez parar pela primeira vez para imaginar como realmente seria a minha vida sem nada do que existe em minha volta. Se a partir de amanhã, sem aviso prévio, eu fosse aos poucos perdendo tudo o que tenho hoje, desde as coisas mais fúteis, como roupas, sapatos, maquiagens, até móveis e eletrodomésticos. Se eu fosse perdendo as pessoas à minha volta. Se não tivesse absolutamente nada pra comer por dias e dias, se não tivesse sequer um cobertor pra passar por rigorosos invernos com neve. Se tivesse que apelar para atos de desespero, como sair pelo mato em busca de ervas daninhas e matar animais de estimação para comer, e por fim acabasse pondo pra dentro qualquer coisa mastigável, só para enganar o estômago. Se tivesse que improvisar com o que tem para me aquecer, num lugar onde não tem nada. Se não tivesse energia elétrica, muito menos internet. Pois foi o que aconteceu, a Coreia do Norte não só parou no tempo de forma assustadora como regrediu, passou de um país em acensão como qualquer outro, para um verdadeiro buraco negro:

Fotos: Reprodução


Enquanto nós temos acesso a todos os meios de comunicação disponíveis e o grandioso advento da internet, podemos ir até a livraria e adquirir um livro como esse para, por curiosidade, só para passar o tempo ou por qualquer outro motivo, ler um pouco sobre a vida do outro lado do mundo; os moradores da Coreia do Norte, não tem nem mesmo a vaga noção de como é precária a situação em que eles se encontram em relação ao resto do mundo, tal a alienação e o isolamento em que vivem, pois o governo os faz acreditar, com que se pode chamar de uma verdadeira lavagem cerebral, que eles não tem, como diz um dos seus hinos, nada a invejar. Afinal, eles vivem no melhor país do mundo.