segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Fiar, Chorar e Esperar

"As mulheres da nossa família têm um fardo a carregar, fiar, chorar e esperar..." O Tempo e o Vento - Érico Verissimo

De repente, tudo o que restava era um novelo de lã. Não que não houvessem outros objetos espalhados pela casa, compondo a mais perfeita desordem. Uma velha conhecida que insistia em pedir que uma atitude fosse tomada, inconveniente e teimosa, assim como toda a sujeira que implorava por limpeza. Dizem que a bagunça de um quarto reflete a confusão mental de quem nele dorme. Eu sempre soube que era um caso perdido. Encontrava em qualquer outra coisa um motivo vagamente convincente pra seguir procrastinando o que se demonstrava como sendo um afazer tão inútil quanto infinito. Quanto mais arrumasse e limpasse, mais coisas surgiriam pra ser limpas e arrumadas. É uma tarefa que não tem um fim. Não é como escrever um texto ou fazer tricô. Deve ser por isso que as donas de casa sofrem de depressão. 

É que alguns objetos tem o costume impertinente de chamar mais a atenção do que outros. Também é assim com as pessoas. De alguns deles quase se podia ouvir o que diziam aos gritos, brados inexistentes que ecoavam pelos ouvidos. Também acontecia com as cortinas, alvas, imaculadas, puras como se nunca tivessem conhecido o pecado. Dissimuladas. As garrafas vazias que se multiplicavam. No cinzeiro transbordando em cinzas de cigarros fumados pela metade mais um retrato do vazio. Quanto às plantas, elas continuavam crescendo vigorosamente, quase que alegremente, como se pouco se importassem com as mãos pelas quais outrora tinham sido semeadas. 

A cidade dormia seu sono triunfal, de pessoas que provavelmente imaginavam ter motivos pra esperar por um longo dia pela frente. Mais uma semana dentro dos conformes, feliz, talvez. Por hora tudo permaneceria no mais insano silêncio, não fosse pelo barulho ensurdecedor da geladeira. Abrindo e fechando a geladeira a noite inteira, com fome de algo que sabia que não iria encontrar lá. E quando não fizesse mais sentido andar de um lado para o outro da casa, o que pareceria loucura aos olhos de um ser invisível que se fizesse presente, sairia sacada afora pra acender mais um cigarro, como se assim pudesse finalmente dar um sentido à vida. Olhar para o céu, ver no movimento das nuvens, a mesma paisagem de todos os dias. Esperando ingenuamente por alguma novidade. Essa deveria ser uma ocupação legítima, mais do que sair da cama em direção ao cotidiano tedioso e necessário, apenas fumar e escrever ou fiar, chorar e esperar.

O novelo de lã continuava lá. Acredito que novelos de lã possuem peculiaridades que são inenarráveis, mas que fazem jus à vã tentativa de serem exploradas por uma narrativa qualquer.  Todos eles trazem consigo um tipo de esperança desconfortável. Não se pode comprar um novelo de lã impunemente. É preciso que se dê um destino a ele. Um sapatinho, uma touca, um cachecol. Alguma coisa. Nós acabamos adquirindo muitas coisas, coisas que vão se consumir imediatamente ou simplesmente jazer como enfeite numa prateleira, coisas demais. Mas partir do momento em que se compra algo como um novelo de lã, é firmado um compromisso entre ele e você. Não se pode simplesmente deixar pra lá. As coisas que precisam ser feitas chamam com mais urgência quando se tenta escondê-las furtivamente no fundo de uma gaveta.  E o novelo de lã continuava lá.

Não só pra me fazer lembrar de sua melancólica existência, mas exigindo que se tomasse uma providência, que não fosse a alcoólica. Não é como uma planta, só o que se tem a fazer é semear e esperar que ela faça por si só o que se propôs a fazer. Com um pouco de terra, água, sol e carinho, as plantas dão conta do recado. É importante que se olhe pra elas todos os dias. É possível encontrar alguma satisfação em vê-las crescendo coradas e rijas, dando flores como que sorrindo pra você. De alguma forma, é como se elas soubessem quem realmente olha por elas. A minha avó tinha verdadeiro apreço por plantas e não é difícil entender o porquê. 

Um novelo de lã não passa de um amontoado de fios, emaranhados de forma graciosa e perturbadora. Ele tem uma cor, uma textura, uma promessa. Tem tudo a ver com alguma pessoa. Você imaginou como ficaria bem em alguém a peça a que planejou dar forma um dia. Pensou em como seria uma boa surpresa. Pouco importa que esse acontecimento nunca vai se concretizar, de qualquer forma já aconteceu, dentro da sua mente. Não adianta tentar levianamente dar outro tipo de destinação a ele. Você não pode simplesmente sair pelas ruas usando um cachecol que não é seu com um sorriso no rosto, muito menos jogar o objeto de um furto por antecipação nas mãos de um inocente.

Você precisa apenas ir trançando os fios ou as palavras de alguma forma lógica até que isso acabe por se transformar em algo. Algo belo, que seja admirável. Nessa vida é preciso desenvolver algum talento que faça com que você se sinta alguém, alguém que não viveu inutilmente, que deixou a sua marca no mundo. Que faça a pessoa a quem você dedica a sua obra-prima se sentir especial. É o que se pode dizer sobre a arte. Não faria sentido tamanha dedicação e horas perdidas, e então guardar tudo pra si mesmo, sem fazer mais alguém feliz. É isso que nos faz levar a vida adiante, afinal. A arte é como a luz no fim do túnel. É ainda ter algo belo e luminoso pra se olhar quando tudo ao redor escurece. 

Uma terapia, isso de ocupar as mãos e desocupar a mente. É como se fosse possível ter uma boa conversa com algumas coisas, como se ao falar com elas, curiosamente, elas falassem de volta.  Como se a cada passada de agulha uma pergunta fosse respondida. A cada linha escrita, as coisas se tornassem mais claras. 

Todo mundo precisa de algo pra seguir em frente, e ir desembolando e bolando os fios até que eles formem alguma coisa de aspecto melhor que um novelo, parece uma boa ideia. Já sei. Qualquer coisa que faça sentido. Que possa ser útil a alguém. Que possa aquecer em dias frios. A sua textura macia talvez traga consigo algum conforto. Que formasse a composição perfeita com a cor dos olhos de alguém. Que pudesse até ser impregnado pelo doce perfume de outra mulher. Que possa fazer lembrar de mim.

Fios e mais fios fazendo o que eles fazem de melhor, ir do nada ao lugar nenhum.

Delírios.

Talvez a coisa certa a se fazer, aquela racional, fosse tão somente transformar a porra toda em uma grande e majestosa fogueira. Novelos de lã, chambres, cortinas. Folhas e mais folhas de caderno. Teatral, poético, simbólico. Ritualístico, até. 

Bom seria se fosse possível, com a mesma facilidade, transformar em cinzas todos os pensamentos idiotas sobre o que foi, o que não foi e, principalmente, o que poderia ou não ter sido. Deixar que todos os sentimentos, ansiedades e angústias, finalmente descansem em paz. Dar a eles um funeral digno. E depois jogar pelos ventos o que restou e sair andando. Com leveza. Como se nada tivesse acontecido.

Fotos: Reprodução

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