domingo, 15 de fevereiro de 2015

Planeta Terra

Fotos: Reprodução





















Surreal. Emocionante.

Série que, em uma única temporada, com 11 episódios, de 44 minutos cada, é o apanhado geral de uma viagem incrível por cada canto do Planeta Terra. Mais completa e compacta, impossível. E deveria ser obrigatoriamente assistida por todo e qualquer terráqueo que se preze.

Como diz a sinopse do Netflix, "leva amantes da natureza da Cordilheira do Himalaia às profundezas do oceano, passando por todos os lugares pelo caminho". É aquele tipo de documentário que informa e entretêm ao mesmo tempo, unindo imagens belíssimas com uma dose cavalar de conhecimento, e eu sinceramente poderia passar a vida olhando para algumas cenas de tão encantadoras. (Me rendi ao Netflix, sim, fui a última pessoa do planeta a fazer isso e não, não vou ter vida a partir de agora de tanta coisa boa que tem pra ver).

Acho que a natureza nunca vai deixar de me impressionar, e eu adoraria conhecer cada lugarzinho do mundo. Mas, como nem todos os lugares são acessíveis, que bom que existem pessoas corajosas o suficiente para desbravar o nosso grandioso planeta, às vezes arriscando suas vidas, para nos dar um presente como esse.

Fiquei de boca aberta com a qualidade das filmagens, todos os detalhes, as cores, tudo é de uma riqueza excepcional. Adoro os trechos em câmera acelerada, que mostram todo o desenvolvimento de um fungo, por exemplo. Teve momentos em que fiquei pensando, mas na verdade mal posso imaginar, além de todo o dinheiro gasto, o trabalho que deu para fazer tudo isso. A trilha sonora é maravilhosa, composta por música clássica, sincronizada com cada cena, fazendo realmente parecer que tudo é orquestrado por uma força maior. Não posso deixar de citar o narrador, que também é ótimo, parece um vovozinho contando histórias (o que pode se tornar um verdadeiro sonífero às vezes, mas de qualquer forma é ótimo). 

Sempre gostei desses programas de TV sobre natureza, plantas, animaizinhos fofos e essas coisas, porque sinto que me transporta para universos paralelos que nós, na maior parte do tempo, não temos a consciência de que coexistem conosco, e esse é um documentário especial que merece destaque. É tão mágico ver como os demais seres vivem, as paisagens deslumbrantes, coisas como o cavalo marinho pigmeu que eu nunca ia saber que existia se não fosse por esse documentário, tanta vida com todas as suas curiosidades e tanta coisa a ser desvendada ainda... E como a natureza é harmoniosa, perfeita e, especialmente, muito louca!

"Nosso planeta ainda está cheio de maravilhas. Assim como exploramos ele, não ganhamos apenas compreensão, mas poder. Não é somente o futuro das baleias que hoje está em nossas mãos, é a sobrevivência do mundo natural em todas as partes onde há vida. Nós podemos destruir agora, ou podemos apreciar. A escolha é nossa."

Danças do acasalamento podem ser tão bizarras quanto engraçadas


















Me despeço com um pouquinho do urso polar que me fez morrer de amores de tão fofo que ele é, e ao mesmo tempo despedaçou meu coração porque corre o risco de entrar em extinção por causa do aquecimento global: https://www.youtube.com/watch?v=BSWa8DZEy84

Os papais pinguins chocando seus ovinhos foi outra das cenas que me matou de fofura. Obrigada, equipe de filmagem que quase morreu congelada para isso.

Ah, agora vou começar a avaliar as séries, ou o que for, entre 1 e 5 estrelas, porque eu acho que assim as resenhas vão ficar mais completas. No caso dessa não tem como ser menos de 5 estrelas, eles fizeram um trabalho simplesmente impecável. 



terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Curto e Grosso

Foi no momento em que afinal estacou em frente a seu escritório que o velho homem teve nítida a sensação de que a última porta estava sendo fechada bem diante de seus olhos. Após um último longo e pesaroso suspiro, enfim juntou um pouco da coragem que ainda lhe restava e girou a maçaneta. Seus pés cansados de algum jeito o levaram adiante, até que de ombros caídos acabou por adentrar completamente o lugar que um dia fora o palco de sua vida. Foi de imediato recebido por uma dificuldade pior que a costumeira em respirar, dentro da saleta puída e abafada, que denunciava o esquecimento proposital desse cômodo por parte das restantes moradoras da casa.

Como se sua alma tivesse sido sugada a vácuo em direção a um sono profundo e decidido ficar por lá, absorta em memórias afáveis, passou a agir mecanicamente, enquanto seus olhos fixavam algo que não podia ser visto porque não existia mais. Desconfortável no lugar que sempre lhe fora tão familiar, se reprimia vagamente por não ter previsto onde tudo isso ia dar.

Já havia se tornado uma assombração antes mesmo de partir. As filhas, enlutadas, por certo haviam repousado o sofrimento que lhes era legítimo em algum canto da casa enorme e vazia. Sua amável esposa... nunca se acostumaria a vê-la como ex depois de toda uma história de vida compartilhada. Ela havia organizado as duas agendas metodicamente de forma que evitasse a todo custo um reencontro. Fosse como fosse, queria apenas fazer o que tinha que ser feito o mais rápido possível. Nunca gostou de despedidas e com a sua não ia ser diferente.

Gostaria de não ter se demorado tanto no retrato de casamento que ela num rompante daquela ironia ácida que lhe era peculiar havia colocado sobre a cômoda. Lançou mão dos poucos objetos que tinha acumulado ao longo da vida, enfiados desajeitadamente pra dentro de uma mala, por alguém que tivera se obrigado a ter estômago pra isso. Assim como preferia ter ignorado a cama de solteiro e toda a mobília improvisada que compunha a réplica perfeita do quarto de estudante solteirão que havia sido seu em tempos longínquos. Beber e jogar era o único prazer que lhe restara, e já havia meses que dormia sozinho e da mesma forma fazia suas refeições no pequeno quarto, onde finalmente dispunha de privacidade para suas suspeitas ligações telefônicas. Na esperança de que se tornasse um lugar onde poderia recolher-se a sua solidão e pensar no que exatamente estava fazendo com o final de sua vida.

Quase podia sentir cravejados sobre suas costas os olhares que atravessavam as paredes vindos das últimas mulheres no mundo que gostaria de ver com o coração partido. Ele que sempre fora o patriarca de pulso firme, dono da razão e da última palavra naquela casa, e agora o ancião que já viveu o suficiente para saber o que estava fazendo, não admitiria confrontos. Que já viveu o suficiente.

Foi em vão seu descomunal esforço para não pensar em nada, pois logo foi surpreendido por um pensamento sorrateiro e infantil... Será que seriam capazes de perdoá-lo um dia? Passadas as mágoas, haveria uma manhã de domingo em que se lembrariam com carinho, não de quem ele havia se tornado, mas da pessoa que fora um dia? Um dia elas iriam entender.

De repente, ele que sempre esteve preparado pra tomar decisões rápidas quando entre a vida e a morte, se pegou vacilando por mais de um instante, e se deu conta que isso já tinha ido longe demais.

Era chegada a hora. Como se não existisse dor, mal sentiu o nó que se formava em sua garganta e tornaria seus olhos marejados antes que pudesse fazer qualquer coisa. Seguiu seu caminho sem externar qualquer emoção. Tal qual o cão que se isola da matilha quando pressente que o fim está próximo, estava convicto que essa era a decisão certa a ser tomada. Pegou suas coisas e foi embora sem dizer uma palavra. Curto e grosso, deixou pra trás tudo o que fez com que a vida tivesse sentido alguma vez. 

De peito oco, se deixou levar pelos caminhos tortuosos que desembocariam em braços docemente perfumados, onde seria recebido pelos beijos gloriosos de uma boca escandalosamente vermelha, da moça com quem decidira matar o tempo que lhe restava. Nunca tentou mudar o desfecho de sua história, apenas sabia que precisava ser assim.

- Que seja. 

Morreu nas mãos de uma enfermeira qualquer.

Fotos: Reprodução